Merece leitura e reflexão o texto de Maria do Carmo Vieira, “Carta aberta ao ministro da Educação”, hoje divulgado no Público.
Atenta Inquietude
"E o mundo ..., sou eu que o contemplo, é ele que me contempla, ou trocamo-nos? ..." Herberto Helder
quarta-feira, 29 de abril de 2026
A LER "CARTA ABERTA AO MINISTRO DA EDUCAÇÃO"
terça-feira, 28 de abril de 2026
MAS AS CRIANÇAS, SENHORES?!
Parece uma matéria de há muitos anos, mas, dramaticamente é dos dias de hoje. O Relatório Intercalar da Garantia para a Infância enviado à Comissão Europeia relativo a 2024 regista que 3036 “crianças ou jovens foram identificados como sem-abrigo”.
Vejamos ainda alguns dados do
Inquérito às Condições de Vida e Rendimento elaborado Instituto Nacional de
Estatística divulgado em 2025 e que aqui comentei.
Entre 2021 e 2024 as condições de
vida da população em geral melhoraram, a taxa de privação material e social, a
taxa de privação material e social melhorou, baixou de 13,5% para 11%.
No entanto, é preocupante que na
população infantil a taxa de privação sobe, sendo mesmo superior ao da população geral, passou de
10,7% para 11.3%. Nos casos de privação severa a taxa desceu ainda que de forma
residual nas crianças.
Existem dois factores que
contribuem de forma significativa para a situação verificada com as crianças,
famílias monoparentais e nível de escolaridade dos pais.
Considerando esta variável, 55,5% das crianças que integram em famílias em que ambos os progenitores só têm o
ensino básico, vivem em privação. No entanto, apenas 20,1% das crianças
integram famílias com este nível de escolarização.
Repetindo-me sobre estas
questões, os dados são inquietantes, está bem estudada a relação entre a
situação económica, laboral e nível de literacia familiar no trajecto pessoal
sendo que, sem surpresa, são estas crianças e jovens que, globalmente, mais dificuldades sentem
no desempenho escolar bem-sucedido.
Também sabemos que a pobreza tem
claramente uma dimensão estrutural e intergeracional, as crianças de famílias
pobres demorarão até cinco gerações a aceder a rendimentos médios, um indicador
acima da média europeia.
A escola é certamente uma
ferramenta poderosa de promoção de mobilidade social, mas, por si só,
dificilmente funciona como elevador social.
O impacto das circunstâncias de
vida no bem-estar das crianças e em aspectos mais particulares como o
rendimento escolar ou o comportamento é por demais conhecido e essas
circunstâncias constituem, aliás, um dos mais potentes preditores de insucesso
e abandono quando são particularmente negativas, como é o caso de carências
significativas ao nível das necessidades básicas.
É este o desafio que enfrentam as
políticas públicas de diferentes sectores.
Em nome do futuro, não podemos
falhar, repito, não podemos falhar.
segunda-feira, 27 de abril de 2026
VIDA INDEPENDENTE
Na passada sexta-feira o Parlamento aprovou um projecto de lei do PS com o objectivo de reforçar os dispositivos de assistência pessoal a pessoas com deficiência e um projecto de resolução do Chega sobre a mesma questão.
A proposta do PS pretende alargar
a resposta e a gratuitidade do serviço de assistência pessoal para pessoas com
deficiência, no âmbito do Modelo de Apoio à Vida Independente (MAVI). Esta
iniciativa promoverá mais à apoio à autonomia e à inclusão reforçando o apoio à
autonomia e inclusão. Propõe-se aumentar a cobertura nacional da resposta
estabelecendo novos acordos com Centros de Apoio à Vida Independente e do
aumento da capacidade dos já existentes. Pretende-se no primeiro ano conseguir
um aumento de 30% da resposta disponível, incluindo mais horas de assistência.
A ver vamos o resultado.
Retomo umas notas que muitas
vezes aqui tenho deixado, recordando o que escrevi em 5 de Maio de 2025, o Dia
Europeu da Vida Independente, em que se realizaram manifestações em oito
cidades portuguesas com o objectivo de "chamar a atenção para um conjunto
de questões que continuam por resolver no que diz respeito aos direitos das
pessoas com deficiência".
Na verdade, tantas vezes digo e
repito, a vida de muitas pessoas com deficiência é uma constante e infindável
prova de obstáculos, muitas vezes intransponíveis, que ampliam de forma
inaceitável a limitação na mobilidade que a sua condição, só por si, pode
implicar. No entanto, muitos dos obstáculos não têm apenas a ver com barreiras
físicas, remetem para a falta de senso, incompetência ou negligência com que
gente responsável(?) lida com estas questões.
Muitos destes obstáculos estão
associados ao que as comunidades e as suas lideranças, políticas por exemplo,
entendem ser os direitos, o bem comum e o bem-estar das pessoas, de todas as
pessoas.
Como é evidente, existem muitas
outras áreas de dificuldades colocadas às pessoas com deficiência,
designadamente apoios sociais, educação, qualificação profissional e emprego,
habitação, em que a vulnerabilidade e os riscos de exclusão e pobreza são elevados
traduzido em taxas de desemprego entre pessoas com deficiência muitíssimo
superiores à verificada com a população sem deficiência.
Uma das questões críticas também a considerar prende-se com os apoios à vida independente, designadamente o apoio
para as pessoas tenham acesso a assistente pessoal, "A vida independente,
para ser possível, é preciso ter o direito à habitação, é preciso ter acesso à
habitação, aos transportes, à educação inclusiva, ao trabalho, mas há uma
ferramenta que é fundamental, que é a assistência pessoal". Alguns
milhares de pessoas aguardam o acesso a assistente pessoal.
Como tantas vezes tenho afirmado
e escrito durante décadas, a inclusão assenta em cinco dimensões fundamentais,
Ser (pessoa com direitos), Estar (na comunidade a que se pertence da mesma
forma que estão todas as outras pessoas), Participar (envolver-se activamente
da forma possível nas actividades comuns), Aprender (tendo sempre por
referência os currículos gerais) e Pertencer (sentir-se e ser reconhecido como
membro da comunidade). A estas cinco dimensões acrescem dois princípios
inalienáveis, autodeterminação e autonomia e independência.
As pessoas com deficiência não
precisam de tolerância, não precisam de privilégios, não precisam de caridade,
precisam só de ter os seus direitos considerados. Os direitos não são de
geometria variável cumprindo-se apenas quando é possível ou numa lógica de
serviços mínimos que mascara a realidade.
Este é o caderno de encargos que
nos convoca a todos.
domingo, 26 de abril de 2026
DA REVISÃO DO REGIME JURÍDICO DOS GRAUS E DIPLOMAS
Como é do conhecimento público, o Ministro da Educação divulgou uma propostas de alteração do regime de graus e diplomas que foi entregue aos reitores e Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos.
A proposta desencadeou críticas
generalizadas, quer das Universidades, quer dos Institutos Politécnicos.
O texto de Carlos Ceia divulgado recentemente no Público com o eloquente título “Como implodir o superior: proposta de revisão do regime jurídico dos graus e diplomas”, é elucidativo do que se propõe e das críticas que merece .
Entretanto, talvez admirado com a
recepção da proposta, ao que parece o Ministro da Educação admira-se com
facilidade relativamente às coisas … da educação e depois de uma reunião com Conselho
de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP) já veio a terreiro dizer que admite
rever a proposta.
Já cansa, é óbvio que as decisões
em matéria de políticas públicas pertencem às respectivas estruturas, mas manda
a experiência, o quadro legal, o exercício da política e da democracia que se
envolvam as entidades que operam em cada área.
Esta ideia de “atirar o barro à
parede a ver se pega”, esperar pelas reacções e então dialogar é má política,
gera crispação e sustenta incompetência.
sábado, 25 de abril de 2026
25 DE ABRIL
Passados já 52 anos, o tempo voa, é impossível para as pessoas da minha geração não falar do 25 de Abril, daquele 25 de Abril, do nosso 25 de Abril, do meu 25 de Abril, o de 1974.
É com alguma frequência que falo
com gente mais nova sobre o que era o 24 de Abril. Ainda há poucos dias o fazia
com o meu neto Grande, o Simão, com doze anos. Quando conto a vida, o dia a dia daquele tempo,
e algumas das circunstâncias que moldavam os dias percebe-se alguma
perplexidade nos jovens, não tanto pelas referências às grandes questões da
época, conhecem-nas pelas abordagens curriculares, mas, sobretudo, pelas
pequenas histórias do quotidiano.
Histórias do clima de
desconfiança e suspeição sobre a pessoa do lado que nos prendia dentro da
gente, do livro que se não tinha e não se podia ler, do filme proibido, do
disco que se contrabandeava; do teatro que não se podia fazer, da conversa que
se não podia ter, do professor de quem não se podia discordar, da ideia que se
não podia discutir, da repressão visível e, mais pesada, invisível, do beijo
que não se podia dar em público, do livro único para formar um pensamento
único, de tantas outras histórias com que se tecia um mundo pequeno que nos
queria pequenos.
São sempre conversas
estimulantes. É certo que me deixam a doce amargura da idade, mas, talvez num
excesso de optimismo, quero acreditar que estes miúdos ou jovens não irão
permitir que se possa voltar a ter histórias daquelas para contar a gente mais
nova. Sim, os tempos vão duros e têm-nos trazido circunstâncias que julgávamos
que não voltariam e assustam. Muita gente, sem memória, sem conhecimento,
sem valores inferniza os nossos dias.
Ainda assim, acho que boa parte
desta gente mais nova, apesar das enormes dificuldades que enfrentam para
construir um projecto de vida viável e sustentado, não vai mesmo crescer e
estudar para ser escrava. Esta gente vai, apesar de por vezes se sentir "à
rasca”, chegar ao futuro.
Gosto de acreditar nisto. Também
por causa daquele 25 de Abril.
E porque fica mais fácil e é mais
bonito "Traz outro amigo também".
sexta-feira, 24 de abril de 2026
SIM, OS PROFESSORES PORTUGUESES SÃO COMPETENTES
Sim, genericamente, os professores portugueses são competentes. E são competentes, não porque o estudo agora divulgado pela OCDE, "Teacher Knowledge Survey" o venha dizer, antes pelo contrário, o estudo é frágil em várias dimensões, dimensão qualitativa e quantitativa da amostra e metodologia usada, por exemplo. Insisto, são competentes e fazem a sua parte causando a admiração do Ministro da Educação.
Sim, a formação inicial e contínua dos professores pode ser melhorada, pode sempre. E também sabemos que
na vida de cada um de nós que foi aluno ou na dos alunos que agora frequentam a
sua formação escolar há sempre um professor que faz a diferença. E sim, a
generalidade dos professores portugueses vão fazendo a diferença na vida dos
seus alunos.
No entanto, é bom não esquecer
que as decisões em matéria de políticas públicas de educação são críticas para
a qualidade global e competência do sistema educativo. Os recursos disponíveis,
as condições sociais, profissionais e de valorização dos profissionais que trabalham
no sistema educativo (professores, técnicos, auxiliares, etc.), a desburocratização
do trabalho das escolas, os modelos de gestão das escolas e agrupamentos, a
estabilidade e competência em matéria de currículos, os dispositivos de
avaliação e regulação, os recursos de apoio aos alunos, todos os alunos, entre
outras variáveis, são a base da qualidade de um sistema educativo. Os professores, apesar das incidências e das dificuldades, fazem a sua parte.
Para finalizar esta pequena nota,
gostava ainda de relembrar uma ideia do enorme João dos Santos, “O Professor
João, foi meu professor porque foi meu amigo” e uma convicção pessoal que a
idade cada vez mais cimenta, qualquer professor ou educador, tanto ou mais do
que aquilo que sabe, ensina aquilo que é. É da relação que tudo nasce numa sala
de aula, qualquer que seja a configuração.
A verdade é que de todos os
professores que connosco se cruzaram, os que mais nos marcaram positivamente
foi sobretudo pelo que eram e menos pelo que nos ensinaram, por mais importante
que seja.
E sim, a esmagadora maioria dos
professores portugueses são bons professores e não é este estudo que o vem
demonstrar.
quinta-feira, 23 de abril de 2026
DIA MUNDIAL DO LIVRO
Hoje, dia 23 de Abril, de acordo com o calendário que organiza as nossas preocupações, são tantas, cumpre-se o Dia Mundial do Livro.
Os dias de chumbo que vivemos têm
múltiplos impactos e também no mundo dos livros, os apoios neste sector, como
noutras áreas, serão insuficientes.
No entanto, é imprescindível
sublinhar e afirmar sempre que os livros e a leitura são bens de primeira
necessidade para gente de todas as idades donde a insistência. Recordo sempre
Marguerite Yourcenar que no imperdível “As Memórias de Adriano” escrevia “A palavra escrita
ensinou-me a escutar a voz humana.”
São múltiplos os estudos e
referências que sublinham o impacto dos livros e da leitura no trajecto escolar
e no trajecto pessoal. Lamentavelmente, são também muitos os trabalhos que
mostram que os hábitos de leitura são pouco consistentes entre as crianças,
adolescentes e jovens como, sem surpresa, também o são entre a população em
geral. Nos últimos tempos parece estar a despertar um maior interesse pelos
livros, sobretudo entre os mais novos, associado a um fenómeno das redes
sociais, os booktokers que lêem e divulgam livros no TikToK. Esperemos que se
mantenha e fortaleça.
Os livros têm uma concorrência
fortíssima com outro tipo de materiais, jogos ou consolas por exemplo, e que
nem sempre é fácil levar as crianças, jovens ou adultos a outras opções,
designadamente aos livros.
Apesar de tudo isto também
sabemos que é possível fazer diferente, mesmo que pouco e com mudanças lentas.
Como várias vezes tenho afirmado
e julgo consensual, a questão central é o leitor, ou seja, o essencial é criar
leitores que, quando o forem, procurarão o que ler, livros por exemplo, em que
espaços, biblioteca, casa ou escola e em que suportes, papel ou digital.
Um leitor constrói-se desde o
início do processo educativo. Desde logo assume especial importância o ambiente
de literacia familiar e o envolvimento das famílias neste tipo de situações,
através de actividades que desde a educação pré-escolar e 1º ciclo deveriam ser
estimuladas, muitas vezes são, e para as quais poderiam ser disponibilizadas
aos pais algumas orientações. Talvez tivéssemos perdido uma oportunidade
enquanto os alunos estiveram em casa tanto tempo.
Apesar dos esforços de muitos
docentes, a relação de muitas crianças, adolescentes e jovens com os materiais
de leitura e escrita assentará, provavelmente de forma excessiva, nos manuais
ou na realização de trabalhos através da milagrosa “net” proliferando o
apressado “copy, paste” ou resumos disponíveis das obras que são de leitura
obrigatória ou recomendada.
Neste contexto, embora desejasse
muito estar enganado, não é fácil construir miúdos ou adolescentes leitores que
procurem livros em casa, em bibliotecas escolares ou outras e que usem o
"tablet" também para ler e não apenas para uma outra qualquer
actividade da oferta sem fim que está disponível. A iniciativa dos booktokers
que referi acima pode ser um bom sinal.
Felizmente e apesar das
dificuldades também importa sublinhar que se realizam com regularidade
experiências muito interessantes em contextos escolares, os professores
bibliotecários têm desenvolvido um trabalho essencial, ou em iniciativas mais
alargadas a outras entidades como autarquias e instituições culturais.
Precisamos de criar leitores,
eles irão à procura dos livros ou da leitura, mesmo em tempos menos favoráveis.
quarta-feira, 22 de abril de 2026
O MINISTRO ACHISTA
É notável. Fernando Alexandre é Ministro da Educação desde 2 de Abril de 2024. Até hoje, o Ministério não conseguiu definir com rigor e divulgar o número de alunos que têm estado sem aulas devido à falta de docentes. Ontem, ao ser ouvido na Comissão Parlamentar de Educação e Ciência, finalmente, o Ministro falou com rigor, a situação "é muito menos grave" do que é apresentado.
Temos agora um Ministro “achista”, acha que faltam docentes nas escolas, mas poucos e em poucas escolas. Mais um tempinho e … não faltam professores. É só esperar os resultados do levantamento que anda a ser realizado há muito tempo. Talvez já não falte muito.
Não é possível gerir um problema tão grave e com impacto tão sério no percurso escolar de muitos alunos com esta leviandade e incompetência. É óbvio que a solução não é fácil nem rápida, mas é certamente positivo que se conheça, divulgue e assuma com rigor a dimensão do problema com que tantos alunos se confrontam.
A história não vos absolverá.
terça-feira, 21 de abril de 2026
NECESSIDADES ESPECIAIS E ENSINO SUPERIOR
Uma boa notícia no mundo da educação é algo que não podemos deixar de realçar. Dados do Inquérito às Necessidades Especiais de Educação no Ensino Superior divulgados pela Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência mostram que o número de alunos com necessidades especiais a frequentar este ano o ensino superior é de 6376, um acréscimo de 20% relativamente ao ano passado. De facto, o número tem vindo a subir nos últimos e o dado deste ano é tanto mais significativo quando coincide com um abaixamento de 10% do número total de alunos que ingressaram no superior, aspecto que ontem aqui comentei.
No entanto, apesar deste dado
positivo ainda temos muito trabalho pela frente, dados de 23/34 mostram que
apenas 14% das vagas do contingente especial para estes alunos foi ocupada.
Também é relevante que a taxa de abandono aumentou ligeiramente, de 10,25% de
23/24 para 11% no ano passado.
Recordo que, a candidatura de
alunos com necessidades especiais ao ensino superior tem previsto um
contingente prioritário para candidatos com deficiência apenas “os titulares de
atestado médico de incapacidade multiuso que avalie incapacidade igual ou
superior a 60% ou os titulares de parecer positivo de comissão de peritos”.
Será ainda obrigatória a comprovação “das medidas adicionais de suporte à
aprendizagem durante o percurso do ensino secundário justificadas pela
deficiência em causa”.
Dadas as dificuldades sentidas o
MECI manifestou a intenção no ano passado de alterar este quadro, o que creio
não se ter verificado.
Como já aqui tenho escrito, é
habitual ouvir-se que, recorrer a quotas ou contingentes especiais para
minimizar exclusão ou desigualdade, não sendo o ideal, pode ajudar a minimizar
os problemas. No entanto, a questão é mais complexa, nem sempre as vagas definidas
no contingente especial são preenchidas.
Para além da definição de quotas
no acesso ao superior e dos seus critérios de aplicação, a promoção da
qualificação de cidadãos com necessidades especiais e, portanto, da sua
inclusão começa na educação pré-escolar e durante todo o trajecto do ensino básico
e secundário. Neste percurso é crítica a necessidade de dispositivos de apoio
competentes e suficientes.
A realidade, no âmbito da chamada
educação inclusiva, apesar das boas experiências que existem, não é a que
muitas vezes se vê referida. A título de exemplo e como qui muitas vezes
referi, nem sempre é cumprido o limite de alunos com necessidades educativas
especiais por turma.
São claramente insuficientes os
recursos técnicos e humanos, psicólogos, terapeutas e auxiliares e verifica-se
a incapacidade de muitas escolas na operacionalização das medidas de apoio
definidas nos relatórios técnico-pedagógicos. As direcções escolares referem a
insuficiência de recursos humanos adequados que se agudiza com dramática falta
de docentes.
Acresce que, como já aqui referi
a propósito do contingente prioritário para alunos carenciados, a decisão de
continuar para o ensino superior é construída durante todo o trajecto do básico
e secundário. Percursos educativos bem apoiados promovem expectativas mais
elevadas de alunos e famílias, valorizam o conhecimento e a qualificação e,
portanto, são mais potenciadores da intenção de continuar a estudar. Donde, é
imprescindível um forte investimento em recursos e dispositivos de apoio que
que sustentem mais sucesso para todos os alunos de todas as escolas.
Também sabemos que, sem
estranheza, as famílias em situação mais vulnerável expressam mais
frequentemente expectativas mais baixas ou nulas sobre o sucesso escolar dos
seus filhos e sobre a importância de estudar. Por outro lado, também sabemos
que a entrada no mercado de trabalho de pessoas com deficiência ainda tem mutos
obstáculos. Torna-se, assim, necessário um trabalho que envolva as famílias no
sentido de construir ou reajustar expectativas sentirem a existência de uma
imagem criadora de futuro.
Embora já seja feito em muitas
escolas, sobretudo no final e durante o pós-básico, seria desejável que os
dispositivos de orientação vocacional tivessem os recursos necessários para de
forma alargada providenciarem informação clara sobre a natureza da oferta
formativa, das suas características e solicitações, a que áreas de desempenho
permitem aceder no mundo profissional, etc. Por outro lado, esse apoio também
envolve o trabalho com os alunos no sentido de ajudar a um processo de tomada
de decisão que seja base para procurar qualificação, de natureza diversa, no
ensino superior.
Já no ensino superior e para
todos os alunos é importante que existam dispositivos de apoio institucionais e
também formas de mentoria desenvolvidas já por alunos a frequentar os
estabelecimentos que contribuam para melhores e mais rápidos processos de adaptação
a novas rotinas, métodos de trabalho, dificuldades de adaptação, etc. O nível
de desistência da frequência é mais alto nas populações mais vulneráveis.
Uma nota final para o óbvio, as
mudanças mais estruturais requerem investimentos e os recursos são finitos,
nenhuma dúvida.
No entanto, as políticas públicas
exigem opções e, também por isso, são avaliadas.
segunda-feira, 20 de abril de 2026
FINALIZAÇÃO DO SECUNDÁRIO E ACESSO AO SUPERIOR
O gabinete da Secretária de Estado do Ensino Superior realizou um Estudo Quebra de ingressos no Ensino Superior divulgado no Público. A taxa de conclusão do secundário em 2024/25 nos cursos científico-humanísticos baixou 10,7 %, passando de 90,1% para 79,4% relativamente a 23/24, valores semelhantes ao período pré-pandemia. Embora não seja a única razão parece ser a base do abaixamento do número de alunos que entraram no ensino superior este ano lectivo.
Que leitura podemos fazer dos
resultados?
Como indicador fundamental de
avaliação externa a análise está comprometida à partida porque pela natureza
das provas, com a potencial variação do seu grau de dificuldade, torna-se
difícil a comparação com anos anteriores. As opiniões anuais de professores e
alunos sobre o grau de dificuldade mostra isso mesmo.
Sendo a avaliação externa uma
ferramenta crítica na regulação de qualidade dos sistemas educativos, importa
que os dispositivos utilizados possibilitem a construção de “retratos” robustos
e comparáveis dos trajectos escolares. Considerando este objectivo, seria
necessário que a construção dos exames contribuísse para que fosse possível
prevenir potenciais enviesamentos.
Por outro lado, também podemos
considerar a existência de uma “gestão política” dos resultados. Recordo uma
afirmação já de 2015 do então presidente do Conselho Científico do IAVE em
Coimbra, referindo a possibilidade de alterar médias com pequenas mudanças em
pouquíssimas questões.
Assim, os exames cumprem a função
de certificação de conclusão do secundário e, sobretudo, sustentar o acesso ao
superior. Neste cenário, parece-me que seria de repensar o modelo de acesso ao
superior.
Desde logo creio que o modelo
actual promove uma desvalorização do próprio ensino secundário que deveria ser
considerado e percebido como a finalização de um ciclo de estudos e não como a
antecâmara do superior e a sala de explicações para preparação para os exames,
aliás ouve-se com frequência o desconforto de docentes de ensino secundário
como este quadro. Na verdade, sentem o seu trabalho com os alunos hipotecado ao
peso dos exames e não à formação a adquirir no ensino secundário nas diferentes
disciplinas. Apesar das alterações realizadas a questão mantém-se.
Por outro lado, a situação actual
favorece, como é sabido e reconhecido, a iniquidade assente na "simpatia
generosa" de algumas escolas, maioritariamente privadas, que inflacionam a
avaliação interna dos alunos ou o florescimento de um nicho de mercado, as
explicações ou centros de estudo, dirigido à preparação para os exames com
custos não acessíveis a boa parte das famílias.
Assim, parece-me ser adequado
entender que a conclusão e certificação de conclusão do ensino secundário e a
candidatura ao ensino superior deveriam ser processos separados.
Os exames nacionais destinam-se,
conjugados com a avaliação realizada nas escolas, a avaliar e certificar o
trabalho escolar produzido pelos alunos do ensino secundário e que, obviamente,
está sediado no ensino secundário.
O acesso ao ensino superior será
um outro processo que deveria ser da responsabilidade do ensino superior e
estar sob a sua tutela com também sugere a recomendação do CNE divulgada em
2020. Seriam exigidos, naturalmente, dispositivos de regulação deste processo.
Parecer-me-ia mais ajustado que
as classificações, internas e externas no ensino secundário constituíssem
apenas um factor de ponderação a contemplar com outros critérios nos processos
de admissão organizados pelas instituições de ensino superior como, aliás,
acontece em muitos países. É óbvio que este processo exigiria regulação
eficiente e o envolvimento do ensino superior público e privado.
Para minimizar equívocos reafirmo
que a questão não está na existência ou importância dos exames finais do
secundário que não me parece colocar grandes dúvidas.
Enquanto não se verificar a
separação da conclusão do secundário da entrada no superior não valorizamos o
ensino secundário no que lhe é próprio e ainda corremos o risco de lidar com
situações de “enviesamento” decorrentes da estrutura de exame ou do grau de
dificuldade escolhido, bem como de negócios que sendo úteis a alguém, não o
serão, obviamente, para a maioria das famílias.
domingo, 19 de abril de 2026
COMO É QUE TE CORREU O TESTE?
A circunstância de viver próximo permite-nos a proximidade e acompanhamento dos netos que, felizmente, fazem parte desta fase já adiantada de uma vida comprida e que, sorte a nossa, tem sido cumprida.
Em tempo escolar e sempre que se
realizam testes é inevitável a pergunta ao Simão ou ao Tomás (que ainda faz
fichas, teste é para o ano), “como é que correu o teste?”.
Curiosamente, quando pergunto
quase sempre me lembro de que nos dias de teste o meu pai também invariavelmente
me perguntava “como é que correu o teste?” e eu sempre respondia, “mais ou
menos”, era mesmo assim. O tempo andou e comecei a perguntar ao meu filho,
“como é que correu o teste?” e a resposta mais habitual era “bem” e como os meus
netos assim tem sido. O teste é de todos os tempos da escola e é necessário que
seja.
Felizmente, não me pareceram
muito preocupados com o “teste”, faz parte do trabalho deles, como faz parte do
trabalho dos professores, não há educação escolar sem avaliação.
O que desejava é que esta
imprescindível dimensão e o trabalho que envolve tivessem como preocupação a
simplificação, estivessem libertos da pressão “grelhadora” e da burocracia
asfixiante a que professores e escolas estão sujeitos. Seria bem ais útil para
todos.
Não vale a pena correr atrás de
novos paradigmas, de discursos e propostas de práticas travestidas de inovação
que nada acrescentam e, por vezes, vêm complicar. É verdade que andar atrás do
“novo” é uma tentação para muitos e alimenta portfólios e apresentações.
Como é evidente, este apelo à
simplificação não tem a ver com menos rigor, qualidade, intencionalidade
educativa ou não proporcionar tempo de efectiva aprendizagem para todos. Antes
pelo contrário, se conseguirmos simplificar processos e recursos, incluindo a
avaliação, alunos, professores e famílias beneficiarão mais do esforço enorme
que todos têm de realizar e estão a realizar.
Sempre que falo desta questão
recordo-me do Mestre João dos Santos, a quem tarda uma homenagem com
significado nacional, quando dizia, cito de memória pelo privilégio de ainda o
ter conhecido e ouvido, que em educação o difícil é trabalhar de forma simples,
é mais fácil complicar, mas, obviamente, menos eficaz, menos produtivo e muito
mais desgastante.
Talvez valesse a pena tentarmos
esta via de maior simplificação. As circunstâncias já são suficientemente
complicadas.
Assim, estimados netos Tomás e
Simão, que os vossos testes e fichas vos corram bem e que ajudem os vossos
professores e professoras a percorrer convosco a estrada que leva ao futuro.
sábado, 18 de abril de 2026
DA EDUCAÇÃO PRÉ-ESCOLAR
A newsletter do Público dedicada à educação tem esta semana como tema de destaque a educação pré-escolar. Na sua recente estadia em Portugal, a Ministra da Educação do país actualmente em moda em educação, a Estónia, sublinhou a importância da educação pré-escolar no sucesso educativo que o país regista. Tenho esperança de que um dia também seremos um exemplo de sistema educativo de qualidade e de qualidade para todos. Enquanto não estivermos na moda contentemo-nos com as provas ModA.
Na verdade, é reconhecido de há
muito a importância da educação pré-escolar para o desenvolvimento das crianças
e o impacto que pode ter no seu trajecto futuro.
A questão é que, muitas vezes
aqui tenho referido, em Portugal as dificuldades começam cedo, logo no acesso a
creches.
Apesar do Programa Creche Feliz
mantém-se a insuficiência de vagas como também acontece no acesso a salas de
Jardim de Infância, cujas condições de apoio foram revistas há dias. Ainda não
conseguimos atingir o objectivo definido para 2025, uma taxa de frequência de
90%, estava em 83% em 2024.
No que respeita à educação pré-escolar,
a partir dos três anos, no início do ano lectivo estima-se que 12000 crianças
entre os três e os cinco anos sem vaga na educação pré-escolar e, segundo o
Ministro da Educação, existem concelhos com “mais de 1500 alunos” inscritos no
portal de matrículas e que aguardam colocação. Serão 30 os municípios com mais
dificuldade de responder às necessidades.
Entretanto, foi aprovado em
Conselho de Ministros uma verba de 42,5 milhões de euros destinados à
celebração de acordos com os municípios para criação de vagas de educação
pré-escolar, para os anos lectivos de 2025/2026 a 2027/2028 sendo que esta
iniciativa contempla também os contratos de associação com estabelecimentos
particulares, cooperativos e solidários".
Na altura, o Ministro da Educação
esclareceu que o apoio "a soluções temporárias" assumidas as pelos
municípios será de 42 mil euros por sala. Existirá também um apoio de 15000
euros por sala atribuídos a estabelecimentos particulares, cooperativos ou do
sector social.
Apesar deste cenário de carência
de lugares Portugal é um dos países com taxas mais elevadas de crianças a
frequentar a educação pré-escolar, obviamente, com um esforço enorme das
famílias.
A garantia do acesso à educação
pré-escolar em Portugal é aos 3 anos, uma posição intermédia no contexto
europeu, no caso da Estónia, por exemplo, é aos 18 meses. No entanto, a
escolaridade obrigatória inicia-se aos seis anos tal como na maioria dos países
europeus e como sabemos existem fortes dificuldades e assimetrias na resposta
pública na educação pré-escolar o que explica os custos elevadíssimos
suportados pelas famílias.
Sou dos tenho alguma reserva face
à obrigatoriedade da frequência do jardim-de-infância aos três anos, mas
defendo a universalidade do acesso. Dito de outra maneira, nenhuma criança com
três anos deve ser obrigada frequentar jardim-de-infância, mas qualquer família
que precise de aceder a esta resposta deve ter acesso e em condições acessíveis
e com qualidade.
Assim, mais do que discutir sobre
o alargamento da escolaridade obrigatória a partir dos três anos importa, isso
sim, assegurar, a universalidade e acessibilidade da resposta o que ainda está
longe de ser conseguido como referi acima.
Sabemos que existem listas de
espera de creches e jardins-de-infância no chamado sector social em que as
mensalidades são indexadas aos rendimentos familiares. Esta situação afecta
sobretudo zonas mais urbanas e a alternativa da resposta privada é inacessível
para muitas famílias.
Acresce que para além da
dificuldade de encontrar respostas os custos elevados do acesso aos
equipamentos, boa parte privada ou da rede social, são dos mais altos no
contexto europeu de acordo com o relatório "Starting Strong 2017" da
OCDE e reforçados com o Education at a Glance 2024. Aliás, esta questão é
contributiva para a baixa natalidade tal como vários outros aspectos das
políticas públicas, designadamente as políticas de família.
Reafirmo as dúvidas sobre a
obrigatoriedade da frequência, mas tenho a maior convicção na necessidade de
garantir a universalidade do acesso à educação pré-escolar aos três anos
criando uma rede de oferta com respostas de qualidade, acessíveis, logística e
economicamente.
Sabemos todos e a evidência
sustenta que o desenvolvimento e crescimento equilibrado e positivo dos miúdos,
bem como o seu trajecto educativo e escolar são fortemente influenciados pela
qualidade das experiências educativas familiares e institucionais nos primeiros
anos de vida. De pequenino é que ...
Assim, existem áreas na vida das
pessoas que exigem uma resposta e uma atenção que sendo insuficiente ou não
existindo, se tornam uma ameaça muito séria ao futuro, a educação de qualidade
universalmente acessível para os mais pequenos é uma delas.
No entanto e mais uma vez, a
educação pré-escolar é bastante mais que a “preparação” para a escola, não deve
ser entendida como uma etapa na qual os meninos se preparam para entrar na
escola embora se saiba do impacto positivo que assume no seu trajecto escolar.
sexta-feira, 17 de abril de 2026
MAL-ESTAR, ADOLESCENTES E JOVENS
Numa peça do Público lê-se que desde o início do seu funcionamento, Setembro de 2024, a Linha Nacional de Prevenção do Suicídio registou cerca de 14 mil chamadas. A maioria das chamadas é realizada por mulheres e jovens, 40%. De acordo com o Coordenador, José Carlos Santos, a frequência de chamadas tem vindo a aumentar.
São recorrentes as notícias e os
estudos que referem ou evidenciam um mal-estar crescente entre os adolescentes
e jovens ainda que se reflicta em todas as idades..
De acordo com dados divulgados em
Setembro de 2025, pelo Programa Mais Contigo, 41% dos adolescentes inquiridos
revelaram sintomas de depressão, tristeza persistente, baixa auto-estima, perda
de interesse ou de prazer e pensamentos negativos. Também 12% dos inquiridos
estarão em risco de comportamentos suicidários.
Vivemos tempos muito complicados
e sombrios que muitas vezes incubam quadros de mal-estar entre os mais novos que a família
e a comunidade escolar muitas vezes não conseguem, primeiro, perceber e,
segundo, desenvolver alguma acção preventiva ou remediativa.
Retomo umas notas em torno do
contexto familiar.
Sabemos da importância protectora
que a família tem na resposta aos desafios da adolescência. Em inúmeras
conversas que realizei com pais estes “desafios” estavam quase sempre na
agenda. Normalmente, começava por recordar e acentuar que crescer e ser, desde
que se nasce é sempre um desafio, mas, evidentemente, percebo as inquietações
associadas a estas idades e, mais recentemente, a um clima pouco amigável, por
assim dizer, que se foi instalando.
Parece-me também importante
reafirmar, faço-o convictamente, que na maioria das situações, com mais ou
menos sobressaltos … a coisa corre bem.
Também sei que quando emerge
algum mal-estar a situação pode ser bem complicada para adolescentes e pais e
uma ajuda exterior pode fazer a diferença. Dito isto, também entendo que é
necessária prudência para evitar um excesso de “psicologização” da vida educativa
das famílias e sabemos que não existe um manual de instruções que tudo
conserta.
A família, recorrendo às palavras
de Paul Bowles que inspirou Bertolucci num filme notável, deveria ser sempre
percebida como “The sheltering sky”, um céu protector na vida de todos os seus
membros, designadamente, nos que pela idade ou pelas circunstâncias enfrentam
“desafios”.
Parece-me ainda claro que este
céu protector só pode ser construído com base na comunicação, na escuta, na
disponibilidade (não estou a falar de tempo embora também), de percepção do que
se passa com o outro e do que ele sente.
Os estilos de vida, as alterações
dos quadros de valores e de prioridades nem sempre serão muito amigáveis para a
construção deste céu protector. Como sabemos as alterações climáticas são uma
realidade e também neste céu familiar se verificam alterações de clima a que
importa estar atento e prevenir … comunicando.
As famílias, nas suas diferentes
tipologias não podem ser um grupo de pessoas com a chave da mesma casa na qual
se cruzam, pouco falam e se escondem num ecrã. Tornam-se tóxicas e degradam-se.
Corremos então o risco de alguns
adolescentes, sobretudo em períodos mais crispados do ponto de vista social,
como estamos a viver, entre “muros”, nas mais das vezes invisíveis, que apertam
de mais e são difíceis de “saltar”. Vejamos alguns exemplos, se alguém os
inquirir sobre o que pensam ser o seu futuro, o seu projecto de vida, muito
provavelmente obterá uma resposta vazia, ou seja, não têm projecto de vida, não
têm ideia de futuro, trata-se assim de viver o presente e apenas o presente. A
adolescência é uma fase fundamental na construção da identidade. Certo, que
identidades estão muitos destes jovens a construir? Revêem-se nelas? Ou
sentem-se meio perdidos num mundo em que não sentem caber e encostam-se aos que
estão tão perdidos quanto eles. Que referências sustentam muitos destes jovens,
o lado positivo? Os modelos adequados, o que quer que isto seja? Ou os modelos
fornecidos por quem, como eles, vive o presente à pressa cheio de medo do
futuro, procurando chegar a tudo antes que se acabe a oportunidade?
Por vezes lembro-me de Brecht,
“Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as
margens que o comprimem”. Esta ideia não tem como objectivo branquear ou
desculpar os comportamentos socialmente inadequados de adolescentes, dirigidos
a outros ou mesmo a si próprio, mas a verdade é que muitos vivem com margens
demasiado estreitas.
Educar, em casa ou na escola,
pode traduzir-se em ajudar alguém a tomar conta de si próprio. Assim, a
autonomia é o fio estruturante da acção educativa e começa no berço. Quanto
mais autónomos mais autodeterminados e auto-regulados as crianças e jovens serão,
menos será necessário "tomar conta deles", eles saberão tomar conta
de si de forma adequada.
O afecto é imprescindível, não
existe "afecto a mais" ou, noutra versão, "mimos a mais".
Existe mau afecto e mau mimo e mau porque é tóxico, faz mal e não por ser
muito.
As regras e os limites são bens
de primeira necessidade. Tal como com os afectos, nenhuma dieta educativa pode
prescindir de regras e limites.
Finalmente e insistindo, a
educação, escolar ou familiar, assenta na relação que tem como ferramenta
essencial a comunicação. A comunicação é essencial, em qualquer idade.
quinta-feira, 16 de abril de 2026
OS DIAS DO ALENTEJO
Estão a chegar os primeiros dias de tempo quente ao Alentejo. Ainda não é o calor áspero que lá para Julho e Agosto é mais habitual e faz parte do que é o Alentejo.
No entanto, estes primeiros dias
mais quentes parece que custam mais, o corpo ainda não se acostumou, como dizia
o Mestre Marrafa, e a lida também parece ficar mais pesada.
Tenho à espera mais umas horas em
cima do tractor com o roça-matos a limpar caminhos e valados do monte cobertos
de erva alta que as chuvas prolongadas deste ano alimentaram. Há anos que não
víamos as nascentes do monte correr assim.
Daqui a umas semanas será roçar o
pasto e fazer aceiros para prevenir incêndios. Para aliviar, ainda é preciso pegar na
roçadora para dar um jeito em torno das laranjeiras para poder fazer as caldeiras
para a rega durante o Verão.
O calor obriga também a mais
atenção à rega na horta para não perder o que está plantado ou semeado. Já
deviam ter ido para a terra, mas hoje e amanhã é a vez dos tomateiros.
Pode ser que ainda consiga
carregar parte da erva cortada para colocar no moitão, como se fala por aqui,
que depois do próximo Inverno estará transformado num composto que enriquece a
terra.
Confesso que quando andamos na
lida quase nos esquecemos das inquietações que o estado do mundo alimenta.
E são assim os dias do Alentejo,
cansativos, mas vividos. Sorte a nossa.
quarta-feira, 15 de abril de 2026
SÓ APRENDE QUEM SE RI
Nos últimos tempos a questão das refeições nas escolas tem estado na agenda e não por boas razões, qualidade e capacidade de resposta das escolas, por exemplo. É claro que o Ministro da Educação já referiu que é uma questão prioritária a rever, “se possível, já no início do próximo ano lectivo”. Bom, se não se for possível … logo se verá.
A verdade é que continuam
preocupantes os dados sobre as circunstâncias sociais e económicas em que vivem
muitas, demasiadas, crianças em Portugal. Apesar de frequentemente aqui abordar
estas questões, é preciso insistir.
Num relatório da Direcção-Geral
de Estatísticas da Educação e da Ciência, “Assimetrias entre Escolas: Ensinos
Básico e Secundário, 2022/23”, evidenciavam-se assimetrias muito significativas
entre escolas no que se refere ao contexto de vida dos alunos. A situação é
mais grave no 1.º ciclo, mas verifica-se em todos os ciclos, bem como no
secundário e no ensino profissional.
Sem surpresa os maiores
contrastes verificam-se nas regiões de Lisboa e Porto. Relativamente a Lisboa,
considerando 82 escolas de 1.º ciclo analisadas, em metade existem mais de 50%
de alunos que beneficiam da Acção Social Escolar e em pelo menos cinco o número
é superior a 80%.
No Porto a situação é da mesma
natureza, a percentagem de alunos do 1.º ciclo com apoio da ASE varia entre 77%
e 7% e das 46 escolas analisadas, em 37% metade ou mais dos alunos beneficia da
ASE sendo que seis destas escolas têm taxas superiores a 70%.
Com base Inquérito às Condições
de Vida e Rendimentos do INE, Carlos Farinha Rodrigues realizou um estudo, Portugal
Desigual, que mostrou que a escolaridade dos pais como critério e sem surpresa
o quadro é mais negativo, “a taxa de pobreza é quase quatro vezes superior
quando os pais têm apenas o ensino básico”, ou seja, no caso de filhos de pais
com escassa escolaridade a pobreza atinge os 34,3% enquanto nos filhos de pais
com o ensino superior, o valor baixa drasticamente para os 8,9%.
É na verdade preocupante,
precisamos de insistir e repito o que há pouco aqui escrevi.
Mantém um elevado risco de pobreza
entre as crianças portuguesas requerendo a atenção das políticas públicas
sectoriais. De acordo com os dados do INE referentes a 2023 verifica-se
"um aumento da taxa de pobreza infantil com 347 mil crianças em risco de
pobreza monetária
É ainda de registar que a
"taxa de risco de pobreza infantil em 2023 foi de 20,7%",
correspondendo a um regresso aos valores de 2017, o que coloca as crianças como
o "grupo etário que regista a maior taxa de risco de pobreza e também
aquele em que se observa uma evolução mais desfavorável deste indicador",
Parece, assim, que estamos longe
de conseguir minimizar os riscos de pobreza e exclusão importa insistir e
apelar a que estas matérias constituam preocupações sérias das políticas
públicas em diversas áreas.
Sabemos que a educação tem um
papel crítico neste processo. Retomando notas que aqui recentemente deixei,
recupero o relatório, “Portugal, Balanço Social 2023”, realizado pela Nova SBE
Economics for Policy. De acordo com o trabalho, 82% das crianças pobres com
três anos ou menos não frequentam pelo menos 30h de creche. Também no intervalo
entre 4 e 7 anos são também as crianças mais pobres que não frequentam educação
pré-escolar.
Apesar da gratuitidade da
frequência da creche em 2022, a insuficiência de vagas dificulta o acesso das
famílias de menor rendimento apesar de alguns efeitos decorrentes do Programa
Creche Feliz.
Está bem estudada a relação entre
a situação económica, laboral e nível de literacia familiar no trajecto
pessoal. E também sabemos que situações de "guetização da pobreza"
são um obstáculo à sua minimização.
Também sabemos que a pobreza tem
claramente uma dimensão estrutural e intergeracional, as crianças de famílias
pobres demorarão até cinco gerações a aceder a rendimentos médios, um indicador
acima da média europeia.
A escola é certamente uma
ferramenta poderosa de promoção de mobilidade social, mas, por si só,
dificilmente funciona como elevador social. Muito menos o fará em
circunstâncias em que a maioria vive em piores condições.
O impacto das circunstâncias de
vida no bem-estar das crianças e em aspectos mais particulares como o
rendimento escolar ou o comportamento é por demais conhecido e essas
circunstâncias constituem, aliás, um dos mais potentes preditores de insucesso
e abandono quando são particularmente negativas, como é o caso de carências
significativas ao nível das necessidades básicas.
Algumas vezes, quando penso
nestas matérias não resisto a recuperar uma história que conto muitas vezes,
coisas de velho como sabem, e que foi umas das maiores e mais bonitas lições
sobre educação que já recebi. E mais uma vez.
Aconteceu há já uns anos em
Inhambane, Moçambique, também conhecida por Terra da Boa Gente. Num início de
manhã, eu o Velho Carlos Bata, um homem velho e sem cursos, meu anjo da guarda
durante as semanas que lá estive em trabalho, íamos a passar por uma escola
para gaiatos pequenos e o Velho Bata, parou a olhar. Não estranhei, era um
homem que não conhecia o significado de pressa.
Um tempinho depois disse-me que
se tivesse “poderes de mandar” traria um camião de batata-doce para aquela
escola. Perante a minha estranheza, explicou que aqueles miúdos teriam de comer
até se rir, “só aprende quem se ri”, rematou o Velho Bata.
Pois é Velho, miúdos com fome e
que passam mal não aprendem e vão continuar pobres. E infelizes, não se riem.
Ontem, hoje e amanhã. Não podemos
falhar
terça-feira, 14 de abril de 2026
VAI CORRER BEM. IRÁ?
Iniciam-se hoje as provas ensaio que visam preparar o sistema e os alunos para a realização das provas de monitorização das aprendizagens (Moda) dos 4.º e 6.º anos e para as provas finais do 9.º ano no termo do ano lectivo. Serão ralizadas, naturalmente, por todos os alunos do 4.º, 6.º e 9.º ano.
A avaliação externa é uma
ferramenta imprescindível de regulação dos sistemas educativos em diversos
patamares.
No entanto e como tenho escrito,
parece-me crítica a decisão de realização do exame em formato digital, fruto do
“deslumbramento digital”, perdão, da transição digital.
No ano passado, as provas ensaio
detectaram dificuldades que também se verificaram nas provas “a sério”.
Durante algum tempo, tive
esperança de que o bom senso e o conhecimento do que se passa noutros sistemas
educativos sustentassem uma reflexão e alguma prudência relativamente à
introdução em termos excessivos dos recursos digitai e pudesse contribuir para
um maior equilíbrio e precaução na utilização destes recursos, designadamente
nos primeiros anos de escolaridade. Sabemos também que se determinou uma
restrição mais exigente relativa aos telemóveis nas escolas e, global e
felizmente, se está a reconsiderar a forma de utilização dos recursos digitais.
Por outro lado, continuam a ser
conhecidas com demasiada frequência queixas relativas ao acesso a equipamentos
por parte dos alunos, à qualidade dos equipamentos, que, de acordo com os
directores de escolas e agrupamentos, a insuficiência dos recursos necessários
à adequada utilização dos equipamentos, nas escolas, mas em particular nas
salas de aulas, infra-estruturas eléctricas e rede de net eficientes, por
exemplo. Acontece ainda que existe uma enorme diversidade na literacia digital
dos alunos.
Deste cenário, apesar do esforço
que vai ser realizado recorrendo ao apoio dos docentes de informática, podem
decorrer situações sérias de desigualdade entre escolas e entre alunos e todos
conhecemos múltiplas situações que evidenciam a enorme disparidade de recursos
e da sua utilização. A proficiência da escrita e realização em formato digital
será na esmagadora maioria dos alunos de natureza e nível diferente o que pode
contaminar os resultados.
Voltando ao início, sei que nem
sempre é fácil “fazer as coisas certas e fazer certas as coisas”, mas neste
caso não me parecia muito difícil.
Foi mesmo uma opção, uma má
opção.
segunda-feira, 13 de abril de 2026
O LUXO DO DESPERDÍCIO
Há uns dias, no JN encontrava-se a referência a um trabalho da Associação Sistema Terrestre Sustentável (Zero) que num estudo realizado a partir de uma amostra com uma amostra permite estimar que as famílias portuguesas poderão desperdiçar mil toneladas de alimentos por dia. É muito desperdício.
Os tempos que vivemos são duros e
torna-se difícil hierarquizar os problemas que afectam as comunidades. A
questão do desperdício alimentar, por cá e no mundo mais desenvolvido, não tem
o destaque que se justificaria e, sobretudo, não parece abrandar. Já num num
trabalho citado no The Guardian em 2016 lia-se que metade de toda a comida
produzida nos EUA é deitada ao lixo.
Mais alguns dados. Em 2022, a
Organização para a Alimentação e a Agricultura, da ONU, estimava que 1,3 mil
milhões de toneladas de alimentos, um terço do que é produzido, são
desperdiçadas com um custo de anual de 570 mil milhões de euros para a economia
global, o suficiente para alimentar 925 milhões de pessoas. Vivemos num mundo
estranho. Na Europa, até chegar ao consumidor perde-se entre 30 e 40% da
comida, qualquer coisa como 179 quilos por habitante, 42% dos quais em casa.
Esta escala de valores no que
respeita ao desperdício de alimentos é devastadora e, como por vezes se quer
acreditar, não é coisa de gente rica, é coisa de toda a gente e mostra o quase
tudo que está por fazer embora, actualmente, tenhamos em Portugal algumas
iniciativas importantes no sentido de atenuar desperdícios.
Na verdade, o desperdício é um
subproduto dos modelos de desenvolvimento e dos sistemas de valores que deveria
merecer uma fortíssima atenção.
Há algum tempo, creio que em
2013, o Parlamento Europeu aprovou um relatório segundo o qual a União Europeia
que tem 79 milhões de pessoas a viver abaixo do limiar de pobreza, 15,8% da
população, e desperdiça anualmente cerca de metade do que consome em alimentos.
Este desperdício corresponde a 89 mil milhões de toneladas, um assombro. Aliás,
o Parlamento Europeu estabeleceu como objectivo reduzir em 50% o desperdício
até 2025. Não creio que se tenha conseguido atingir.
Segundo dados de 2023 do Eurostat,
desperdiçavam-se 58/59 milhões de toneladas por ano, 130 Kg por pessoa.
Neste quadro, releva de novo a
necessidade urgente de ponderar os modelos de desenvolvimento económico e
social, questionar o quadro de valores com que nos organizamos em comunidade,
designadamente no que respeita ao consumo e aos excessos e combater
desperdícios que também são consequência desses modelos.
Acresce que a perda e o
desperdício de alimentos se repercutem significativamente na sustentabilidade
dos recursos. O desperdício foi produzido com recursos, terra, água, trabalho,
investimento que, obviamente, são inúteis e com sérios custos ambientais associados
às alterações climáticas.
Escrever sobre estas questões em
espaços desta natureza terá alcance zero, mas continuo convencido que é
fundamental não deixar cair a preocupação, talvez seja melhor chamar-lhe a
indignação, com a pobreza e exclusão para as quais os níveis de desperdício dão
um forte contributo.
domingo, 12 de abril de 2026
PARTIU MARIA EMÍLIA BREDERODE SANTOS
Partiu Maria Emília Brederode Santos. Percorreu uma vida no mundo da educação e na luta por um mundo melhor que, naturalmente, começa pelo bem-estar dos mais novos e por uma educação que promova esse bem-estar.
Ao longo das últimas décadas
cruzámo-nos inúmeras vezes e sempre prevaleceu a empatia, o empenho e a motivação por mais
e melhor em matéria de educação para todas as crianças e jovens.
Deixou uma marca na educação em
Portugal.
sábado, 11 de abril de 2026
DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA
Ainda há pouco aqui abordei esta tragédia, mas é preciso insistir. A violência doméstica continua a fazer parte da vida de muitas pessoas, demasiadas pessoas. Não tem de ser assim, não é uma fatalidade.
De acordo com o Relatório Anual
de Segurança Interna, RASI, relativo a 2025 contabilizaram-se 27 mortes, 21
mulheres, 2 crianças e 4 homens, menos 4 que em 2024.
Na notícia do Expresso também se
refere que no período da Páscoa, 27/3 a 6/4 se registaram 430 ocorrências de
violência doméstica levando à detenção de 19 suspeitos.
Os dados relativos à violência
doméstica continuam inquietantes e os tempos que vivemos não permitem grande
optimismo. Acresce que, para além de sabermos que a violência doméstica está
habitualmente no topo das participações, este mundo é bem mais denso e grave
que a realidade que conhecemos, ou seja, aquilo que se conhece, apesar de
recorrentemente termos notícias de casos extremos, é "apenas" a parte
que fica visível de um mundo escuro que esconde muitas mais situações que
diariamente ocorrem numa casa perto de nós.
Por outro lado, para além da
gravidade e frequência com que continuam a acontecer episódios trágicos de
violência doméstica e como recorrentemente aqui refiro, é ainda inquietante o
facto de que alguns estudos realizados em Portugal evidenciam um elevado índice
de violência presente nas relações amorosas entre gente mais nova mesmo quando
mais qualificada. Muitos dos intervenientes remetem para um perturbador
entendimento de normalidade o recurso a comportamentos que claramente
configuram agressividade e abuso ou mesmo violência.
Importa ainda combater de forma
mais eficaz o sentimento de impunidade instalado, as condenações são bastante
menos que os casos reportados e comprovados, bem como alguma “resignação” ou
“tolerância” das vítimas face à situação de dependência que sentem relativamente
ao parceiro, à percepção de eventual vazio de alternativas à separação ou a uma
falsa ideia de protecção dos filhos que as mantém num espaço de tortura e
sofrimento. Felizmente este cenário parece estar em mudança, mas demasiado
lentamente. Os sistemas de valores pessoais alteram-se a um ritmo bem mais
lento do que desejamos e estão, também e obviamente, ligados aos valores
sociais presentes em cada época.
Torna-se criticamente necessário
que nos processos de educação e formação dos mais novos possamos desenvolver
esforços que ajustem quadros de valores, de cultura e de comportamentos nas
relações interpessoais que minimizem o cenário negro de violência doméstica em
que vivemos. A educação, a cidadania e o desenvolvimento que sustentam
constituem a ferramenta de mudança mais potente de que dispomos.
É uma aposta que urge e tão
importante como os conhecimentos curriculares. Percebe-se, também por estas
questões, a importância da abordagem do universo da “Cidadania e
Desenvolvimento” na educação escolar e para todos os alunos. Seria ainda
desejável que a ignorância e o preconceito não inquinassem a discussão.
Entretanto, torna-se fundamental
a existência de dispositivos de avaliação de risco e de apoio como instituições
de acolhimento suficientes e acessíveis para casos mais graves, um sistema de
protecção e apoio eficiente aos menores envolvidos ou testemunhas destes
episódios, e, naturalmente, um sistema de justiça eficaz e célere.
A omissão ou desvalorização
destas mudanças é a alimentação de um sistema de valores que ainda “legitima” a
violência nas relações amorosas, que a entende como “normal”. Tudo isto tem
como efeito a continuidade dos graves episódios de violência que regularmente
se conhecem, muitos deles com fim trágico.
Apesar da natureza estranha e
complexa dos dias que vivemos, é fundamental não esquecer que questões como
estas devastam o quotidiano ou a vida de muita gente. Pode estar a acontecer
numa casa ao nosso lado.
Neste contexto, é também de
registar a iniciativa há tempo divulgada de criar um primeiro instrumento legal
de âmbito europeu para combater a violência doméstica e contra as mulheres.
sexta-feira, 10 de abril de 2026
À BOLEIA DA ESTÓNIA
Li com interesse a entrevista da Ministra da Educação da Estónia, a nova estrela dos sistemas educativos, que participou num evento em Oeiras. O discurso é bastante claro, importa, obviamente, considerar aspectos culturais e históricos do país, valorizar o trajecto feito e perceber que, mais uma vez, não é uma receita, é uma experiência em contexto próprio.
Duas notas que me parecem
pertinentes.
Em primeiro lugar, sublinho o
papel central do professor e do seu trabalho e, sobretudo, da sua autonomia.
Em segundo lugar, que tenha dado conta, a Ministra não falou de inovação. Como é possível falar de educação sem falar de inovação? Não sei qual terá sido a reacção do Ministro e do seu Secretário de Estado Adjunto e da Educação, um reconhecido especialista em educação.
Talvez os bons resultados que o
sistema educativo da Estónia evidencia estejam a associados a uma visão que não
se deixa seduzir por uma pretensa e mágica ideia de inovar, mas a um modo de fazer que
sabemos que funciona. E nós também sabemos o que funciona.
Pedindo desculpa por isso, será
conversa de velho e corro o risco de ser injusto, mas, já aqui o tenho
referido, cansa-me a recorrente narrativa da inovação. Por outro lado, e como
também já disse, não simpatizo com a insistência sobre a necessidade de
inovação em educação ou de uma "nova forma de ensinar".
Mudar algo na forma como se faz
não é o mesmo que inovar, fazer qualquer coisa de novo. Como dizia Camões há já
alguns aninhos, “todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas
qualidades” e, recordando um velho entendimento, na psicologia, inteligência é
adaptação, não é, repito, fazer de novo, acreditando que há um novo à nossa
espera.
Nestas matérias, talvez de forma
simplista, mas é intencional, penso como Almada Negreiros quando referia na
"Invenção do Dia Claro”, "Nós não somos do século de inventar
palavras. As palavras já foram inventadas. Nós somos do século de inventar
outra vez as palavras que já foram inventadas”.
Dito de outra maneira, já
conhecemos as palavras da educação, apenas temos que ir ajustando o que fazemos
com elas.
As escolas são o agora, o
presente, e é neste presente que se constrói o futuro. Não existem poções
mágicas em educação por mais desejável que possa parecer a sua existência e
desafiante a chuva de discursos e projectos de inovação.
Num exercício de crença e boa
vontade afirmo, como o José Afonso, “seja bem-vindo quem vier por bem” e
registo todas as iniciativas que possam contribuir para minimizar ou erradicar
problemas, mas já me falta convicção no impacto do procedimento habitual, para
cada constrangimento ou dificuldade percebida nas escolas, pelas escolas ou de
fora das escolas, aparece vindo de fora ou gerido de fora, um Plano, um
Projecto, um Programa, uma Iniciativa, as combinações são múltiplas, destinado
a minimizar eliminar as dificuldades
identificadas.
Durante as últimas décadas, perco
a conta a planos, projectos, programas, experiências inovadoras que chegaram às
escolas para combater o insucesso ou, pela positiva, promover o sucesso,
promover a leitura e escrita, promover a matemática, promover a educação
científica, promover a educação inclusiva, erradicar ou minimizar o bullying, a
relação entre escola e pais e encarregados de educação, promover a expressão
artística e a criatividade, promover comportamentos saudáveis e actividades
desportivas, literacia financeira, promover a inovação e as novas tecnologias,
Sim, também sei, tantas vezes
escrevo e afirmo, que são necessárias mudanças que acompanhem o tempo. O
desenvolvimento das comunidades exige ajustamentos regulares no que fazemos em
matéria de educação e em todos os patamares do sistema, este é que é o grande
desafio. Umas vezes melhor, outras vezes com mais sobressaltos, temos feito um
caminho importante e muito mais ainda vamos ter que fazer, mas os ajustamentos
que decorrem da regulação e avaliação não têm que ir atrás da “mágica” ideia da
inovação.
Tal como as crianças que só
aprendem a partir do que já sabem, nós também só mudamos a partir do fazemos e
do que sabemos. Este processo assenta num processo que deve ser robusto e
apoiado de auto-regulação e regulação que envolve actores e estruturas, ou
seja, o aluno, o professor, a escola, o ME, o sistema educativo. Dito de outra
maneira, a escola do futuro, seja lá isso o que for, constrói-se valorizando e
cuidando da escola do presente, como disse acima, o futuro é agora.
Confesso que me preocupam mais os
tratos que a escola actual recebe, que a inovação da escola do futuro.
quinta-feira, 9 de abril de 2026
DO "PRESENTISMO" DOS "ESCOLANTES" E "ENTREGADOS"
Com demasiada frequência são divulgadas situações e episódios de indisciplina e violência nos espaços escolares. Não estando as escolas imunes a efeitos de contexto, é preocupante, mas não surpreendente os cenários e episódios que se conhecem e muitos que não são divulgados, mas com que professores, técnicos e auxiliares têm de lidar.
Muitas vezes aqui tenho abordado
estas questões críticas e retomo algumas notas que em muitos encontros partilhei com
professores e técnicos.
Em todas as escolas parece
existir um grupo mais ou menos significativo que parece ter desistido do seu
estatuto de “estudantes”, mas que, por diversas razões, parecem optar por um
outro estatuto para si mais simpático, são “escolantes”, vão à escola, estarão
nas aulas, mas … não estudam, assumem uma posição de “presentismo”, estão
presentes nas aulas ou na escola, mas …, por vezes, de uma forma disruptiva que, mais cedo ou
mais tarde, se poderá transformar em indisciplina ou violência que lhes permitirá
recuperar um estatuto valorizado ou temido pelos pares o que alimenta os
comportamentos numa espiral que pode ser difícil de reverter.
É verdade que este cenário não
acontece apenas agora, no meu tempo de aluno já existiam situações desta
natureza, mas é potenciada pela desregulação de discursos e comportamentos que
os últimos tempos têm sustentado para além das dificuldades intrínsecas que as
escolas enfrentam para lidar com estas situações.
Muitos destes alunos,
“escolantes” em modo de “presentismo” criam expectativas de sucesso muito
baixas e a desmotivação cresce, aumentam as faltas, as aulas não servem de nada
a não ser como cenário de exibição de indisciplina, acham que “já não vão lá” e
acabam por ser os grandes candidatos ao empurrão para o ensino vocacional ou …
para lado nenhum.
No entanto, continuam a
deslocar-se diariamente para a escola, é lá que estão os seus amigos e, apesar
de tudo, é lá que eles acham que devem estar apesar dos discursos negativos e
agressivos que produzem com frequência sobre a escola. Ninguém gosta do fracasso,
os discursos e os comportamentos nas mais das vezes mascaram o mal que se
sentem pelo fracasso escolar e pelo que isso significa.
A tarefa de alunos e professores
não é, longe disso, uma tarefa fácil, mas importa não desistir de reverter a
condição de “escolantes” assumindo que são estudantes, alunos.
Como muitas vezes escrevo também
muitos alunos identificados (sinalizados) como tenho necessidades especiais não
estão incluídos nem integrados, estão “entregados”, constituem um outro grupo
de “escolantes” muitas vezes ao abrigo de uma qualquer ideia (existem muitas)
de escola inclusiva.
Todo este universo sublinha a
necessidade e urgência de ajustamento nas políticas públicas, designadamente,
de educação e sociais no sentido que tantas vezes aqui refiro.
É essencial promover e tornar
acessíveis a alunos, professores e famílias apoios e recursos adequados e
competentes a minimizar o risco de insucesso.
É claro que mudanças estruturais
têm custos pelo que será de considerar a necessidade de investimento sério em
educação, 6% do Produto Interno Bruto o que está definido pela UNESCO como meta
para 2030. Talvez a aposta na Defesa condicione a aposta no futuro, a educação.
É crítica a necessidade de uma
política que atraia novos docentes com um modelo de carreira valorizada, justa
e atractiva.
É imprescindível é dotar as
escolas de forma continua e estável dos recursos necessários para minimizar
tanto e tão rápido quanto possível as dificuldades que identificam.
É necessário promover a
desburocratização asfixiante e reflectir sobre modelos de governança das
escolas mais adequados, competentes e participados.
Com real autonomia, com mais
recursos e com modelos organizativos, incluindo a governança, mais adequados e
desburocratizados as escolas poderiam certamente fazer mais e melhor. que quem
vem de fora numa passagem transitória, mais ou menos longa, mas transitória.
Sim, tudo isto deveria ser objecto de escrutínio, regulação e avaliação também
externa, naturalmente.
Escolas com mais auxiliares,
auxiliares informados e formados podem ter um papel importante em diferentes
domínios.
Directores de turma com mais
tempo para os alunos e professores com menos alunos poderiam desenvolver
trabalho útil em múltiplos aspectos do comportamento e da aprendizagem.
Psicólogos e outros técnicos em
número mais adequado poderiam acompanhar, promover e desenvolver múltiplas
acções de apoio a alunos, professores, técnicos e pais.
Mediadores que promovessem
iniciativas no âmbito da relação entre escola, pais e comunidade seriam, a
experiência mostra-o, um investimento com retorno. Repetindo e sintetizando, os
professores sabem como avaliar e identificar as dificuldades dos alunos.
Uma nota final para sublinhar a
necessidade de estabilização curricular e da questão da avaliação e percurso
escolar dos alunos e reafirmar a importância da avaliação externa como
reguladora do trabalho realizado.
É este o desafio que enfrentam as
políticas públicas de diferentes sectores.
Em nome do futuro, não podem
falhar, repito, não podemos falhar.
quarta-feira, 8 de abril de 2026
O PRINCÍPIO DE SHIRKY
Os tempos vão estranhos e duros. São múltiplos e em diferentes áreas os exemplos de aplicação do chamado Princípio de Shirky.
Na verdade, algumas instituições,
entidades, estruturas, etc. tendem a alimentar os problemas para quais se
espera que sejam a solução.
É o mercado, os mercados, certamente.
É uma questão de ética,
certamente.
É uma questão de falta de
regulação, certamente.
Sofrem os mais vulneráveis ...
certamente.
terça-feira, 7 de abril de 2026
DA PROTECÇÃO DE CRIANÇAS E JOVENS. É PRECISO INSISTIR
Há uns dias, o Público divulgou um trabalho que mostra o quanto ainda temos de caminhar no sentido da protecção dos direitos dos mais novos.
Em 2025, as Equipas Multidisciplinares de Apoio Técnico aos
Tribunais acompanharam 1968 crianças e jovens cujo direito à educação estava em
causa.
Trata-se de casos de absentismo e abandono escolar que nem as
Comissões de Protecção de Crianças e Jovens, nem as escolas conseguiram resolver
pelo que vão para tribunal onde existe o apoio das Equipas Multidisciplinares. Estes
processos de promoção e protecção judiciais referem como principal
"categoria" de perigo as “Situações de perigo em que está em causa o
direito à educação."
É ainda relevante considerar que em 2024, as Comissões de Protecção de Crianças e Jovens receberam 58.436 comunicações de situações de perigo, um aumento de 6,7% face a anos anteriores. É relevante que, do total, 7246 comunicações envolvem situações em que o direito à educação estará ameaçado (mais 610 situações que em 2023). Por idades registam-se mais sinalizações entre os 15 e os 18 anos e entre os 11 e os 14 anos.
Embora não possa ser estabelecida de forma ligeira nenhuma
relação de causa as dificuldades severas que muitas famílias atravessam e a
insuficiência de apoios sociais não serão alheias a muitas das situações de
risco em que crianças e jovens estão envolvidos pois os estudos mostram que
crianças e velhos constituem justamente os grupos mais vulneráveis.
Desculpem a insistência, mas de há muito e a propósito de
várias questões afirmo que em Portugal, apesar de existirem diferentes
dispositivos de apoio e protecção às crianças e jovens e de existir legislação
no mesmo sentido sempre assente no incontornável “superior interesse da
criança", não possuímos ainda o que me parece mais importante, uma cultura
sólida de protecção das crianças e jovens como alguns exemplos regularmente
evidenciam.
Por outro lado, as condições de funcionamento as Comissões
de Protecção de Crianças e Jovens que procuram fazer um trabalho eficaz estão
ainda longe de ser as mais adequadas e operam em circunstâncias difíceis. Na
sua grande maioria, as Comissões têm responsabilidades sobre um número de
situações de risco ou comprovadas que transcendem a sua capacidade de resposta.
A parte mais operacional das Comissões, a designada Comissão
restrita, é composta por muitos técnicos em tempo parcial. Tal dificuldade
repercute-se, como é óbvio, na eficácia e qualidade do trabalho desenvolvido,
independentemente do esforço e empenho dos profissionais que as integram. A
saída de professores que as integravam agravou de forma substantiva a
insuficiência de recursos.
Muitas vezes tenho aqui referido a necessidade maior
investimento e eficiência no âmbito do sistema de protecção de menores. Para
além do reforço dos recursos das CPCJ seria desejável uma melhor integração e
oportunidade das respostas a situações detectadas, uma adequação às mudanças e
novas realidades na área dos Tribunais de Família e Menores, etc. Os serviços
de apoio às comunidades, ainda que regulados e escrutinados, deverão ser
suficientes e adequados em recursos e procedimentos.
Sinalizamos e referenciamos com relativa facilidade, a
grande dificuldade é mesmo minimizar ou resolver os problemas das crianças
referenciadas ou sinalizadas. Importa ainda não esquecer as que passam mal em
diferentes aspectos sem que estejam sinalizadas ou referenciadas. Nos tempos
que atravessamos os riscos serão maiores.
Por isso, sendo importante registar uma aparente menor
tolerância da comunidade aos maus tratos aos miúdos, também será fundamental
que desenvolva a sua intolerância face à ausência de respostas que más opções
em matéria de políticas públicas sustentam.
As crianças são resilientes, mas família, afecto, contextos
educativos de qualidade, são bens de primeira necessidade.
Como afirma, Benedict Wells em “O fim da solidão”, “Uma
infância difícil é como um inimigo invisível. Nunca se sabe quando nos vai
atingir”.
segunda-feira, 6 de abril de 2026
SERVIÇOS DE PSICOLOGIA E ESCOLAS. DEIXEM LÁ VER
Ao que se lê na imprensa, o MECI informou que as escolas poderão dar início ao processo de vinculação aos quadros de 758 psicólogos e outros 648 técnicos especializados em áreas como terapia da fala, educadores sociais ou técnicos de informática. Vamos ver se se concretiza, pois já tinha sido anunciado há meses.
O objectivo é que todos os agrupamentos
e escolas não agrupadas tenham, pelo menos, um psicólogo no quadro o que não
acontece pois existem 249 unidades orgânicas sem psicólogo vinculado aos
quadros.
Ainda de acordo com o Ministério,
o rácio passará a ser um psicólogo por 796 alunos (o actual é de um psicólogo
por cada 1 656 alunos) e 62% das 807 unidades orgânicas do Ministério da
Educação terão dois ou mais psicólogos nos quadros. Não fico satisfeito com o
que penso … mas vamos ver. Não será a primeira promessa por cumprir.
Aliás, recordo o que em Março
aqui escrevi. O MECI anunciou em Agosto passado a vinculação de 830 psicólogos
nos quadros de agrupamentos e escolas bem como de 576 técnicos especializados,
como terapeutas da fala, assistentes sociais ou técnicos de informática.
Mais se divulgou que teríamos nas
escolas 1655 psicólogos com vínculo permanente permitindo que todas tivessem
pelo menos um profissional nos seus quadros. Neste contexto, o rácio médio de
psicólogo por número de alunos passaria 1472 para cada profissional para 711
alunos. Como se percebe, os dados divulgados pelo MECI em duas ocasiões nem
sequer coincidem. Por outro lado, recordo que as orientações nacionais e
internacionais definem como desejável um rácio de um para 500 alunos que,
aliás, também já foi definido como objectivo pelo Ministério na Lei n.º 54/2025
de 10 de Abril. Esta lei alterou o velhinho Decreto-Lei n.º 190/91, de 17 de
Maio de 1991 que criou os serviços.
Importa recordar e sublinhar que
muitos destes profissionais têm desempenhado durante anos funções nas escolas
com contratos a termo e o número total (cerca de 900) é superior ao número
relativo à vinculação anunciada. Aliás, a Ordem dos Psicólogos Portugueses chama a atenção para este dado e para o que está definido por lei.
Retomo umas notas para insistir
na relevância dos Serviços de Psicologia criados em 1991 por legislação agora
alterada e que nessa altura acompanhei durante algum tempo enquanto estive nos
Serviços do ME que os tutelava, a Divisão de Orientação Educativa.
Considerando o Referencial para a
Intervenção dos Psicólogos em Contexto Escolar, o estado da arte em matéria de
psicologia da educação e do desenvolvimento e de contextos de intervenção
carregados de constrangimentos, o empenhamento e a competência dos profissionais
pode dar um contributo sólido para a qualidade dos processos educativos de
todos os alunos.
Para além do trabalho com alunos
é crítica a colaboração e intervenção com professores, funcionários, direcções
e pais e encarregados de educação, para além de outras respostas na comunidade
dirigidas à população em idade escolar.
No entanto, como tantas vezes
tenho escrito e afirmado, desde 1991 a presença dos psicólogos em contextos
educativos tem vivido entre as declarações dos vários actores, incluindo a
tutela, sobre a sua necessidade e importância e a lentidão, insuficiência e
precariedade no sentido da sua concretização.
Tem sido recorrente a afirmação
por parte de sucessivas equipas do ME da prioridade em promover o alargamento
do número de técnicos e a estabilidade da sua presença nas comunidades
educativa, mas é algo que, como se percebe, tarda em concretizar-se e insisto
em notas já por aqui escritas e marcadas pelo óbvio envolvimento pessoal, quer
na formação, quer na intervenção ao longo de algumas décadas.
No entanto, para além da
precariedade, o número de psicólogos a desempenhar funções no sistema educativo
público tem estado longe do rácio aconselhado para um trabalho mais eficiente.
Não têm sido raras as situações
em que existe um psicólogo para um agrupamento com várias escolas e que envolve
um universo com mais de 1500 alunos e a deslocação permanente entre várias
escolas numa espécie de psicologia em trânsito. Não será uma resposta, é um
fingimento de resposta que não serve adequadamente os destinatários, a
comunidade educativa, como também, evidentemente, compromete os próprios
profissionais.
Temos também inúmeras escolas
onde os psicólogos não passam ou têm “meio psicólogo” ou menos e ainda a
prestação de apoios especializados de psicologia em “outsourcing” e com a
duração de meia hora semanal uma situação inaceitável e que é um atentado científico
e profissional e, naturalmente, condenado ao fracasso de que o técnico
independentemente do seu esforço e competência será responsabilizado. No
entanto, dir-se-á sempre que existe apoio de um profissional de psicologia. O
Referencial orientador da intervenção dos psicólogos nos contextos escolares é
um documento positivo, mas corre o risco ser inaplicável em muitas situações
face ao alargado espectro de funções e actividades previstas associado ao
universo de destinatários.
Neste cenário, a intervenção dos
profissionais, apesar do esforço e competência, tem um potencial de impacto
aquém do desejável e necessário. Áreas de intervenção como dificuldades ou
problemas nas aprendizagens, questões ligadas aos comportamentos nas suas
múltiplas variantes, alunos com necessidades especiais, trabalho com
professores e pais, trabalho ao nível da prevenção de problemas, etc., exigem
recursos e tempo que não estão habitualmente disponíveis.
Acresce que o recurso ao modelo
de “outsourcing” ou a descontinuidade do trabalho é um erro em absoluto, é
ineficaz, independentemente do esforço e competência dos profissionais
envolvidos.
Como é que se pode esperar que
alguém de fora da escola, fora da equipa, técnica e docente, fora dos circuitos
e processos de envolvimento, planeamento e intervenção desenvolva um trabalho
consistente, integrado e bem-sucedido com os alunos e demais elementos da
escola?
Das duas uma, ou se entende que
os psicólogos sobretudo, mas não só, os que possuem formação na área da
psicologia da educação podem ser úteis nas escolas como suporte a dificuldades
de alunos, professores e pais em diversos áreas, não substituindo ninguém, mas
providenciando contributos específicos para os processos educativos e,
portanto, devem fazer parte das equipas das escolas, base evidentemente
necessária ao sucesso da sua intervenção, ou então, é uma outra visão, os
psicólogos não servem para coisa alguma, só atrapalham e, portanto, não são
necessários.
A situação que tem existido
parece, no mínimo, um enorme equívoco que além de correr sérios riscos de
eficácia e ser um, mais um, desperdício (apesar do empenho e competência que os
técnicos possam emprestar à sua intervenção), tem ainda o efeito colateral de
alimentar uma percepção errada do trabalho dos psicólogos nas escolas.
Em 2024, cheguei ao fim de uma
carreira de 46 anos ligada à psicologia da educação e ainda aguardo que a
importância e prioridade sempre atribuídas ao trabalho dos psicólogos em
contextos educativos se concretizem de forma suficiente e estável.
Deixem lá ver.