Mais uma nota da série "M'espanto às vezes, outras m'avergonho" que me desculpe Sá de Miranda.
Quando pensamos que já
dificilmente nos surpreendemos há sempre uma decisão em matéria de políticas
públicas que desce mais um degrau nos direitos, na ética, nos valores, nem acho
que seja um problema de competência.
No âmbito do inenarrável processo
da Prestação Social Única, o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança
Social, extraordinário exemplo de Solidariedade, propõe que as pessoas com um
grau de deficiência abaixo de 80% definido no Atestado Médico de Incapacidade
Multiuso cumpram "trabalho social". Só por incompetência, ignorância, ausência de dimensões de
Solidariedade e Direitos, se pode justificar que alguém nestas circunstâncias possa ser obrigado a
“trabalho social” inventando uma espécie de … terrorismo social.
Na verdade, não me deveria
surpreender. Como aqui escrevi há dias, o Governo disponibilizou em 2026 39,7
milhões de euros para financiar os produtos de apoio para pessoas com
deficiência ou incapacidades temporárias através do Sistema de Atribuição de Produtos
de Apoio (SAPA). Acontece que esta verba é inferior à que foi atribuída em
2025, 46 milhões de euros. As entidades e famílias temem o aumento das
dificuldades diárias das pessoas com deficiência. Algumas décadas de trabalho
nestas áreas e os direitos das pessoas não me permitem não insistir nestas
questões.
De acordo o relatório Pessoas com
Deficiência em Portugal: Indicadores de Direitos Humanos 2025 realizado pelo
Observatório da Deficiência e Direitos Humanos, coordenado por Paula Campos
Pinto, em 2024, 32,4% dos jovens com deficiência não trabalhavam nem estudavam
nem frequentavam dispositivos de formação. Nos jovens sem deficiência o
indicador é de 8,1%, uma diferença significativa, superior a 24%.
A taxa de emprego das pessoas com
deficiência em 2023 era de 64,4% sendo que em situações de deficiência grave
passava para 50,9%.
A diferença da taxa de emprego
entre pessoas com e sem deficiência em 2024 era de 21,3%. Esta taxa estava em
decréscimo até 2022 e voltou a subir.
Numa outra área crítica,
condições sociais e económicas, 66,4% das pessoas com deficiência com mais de
16 anos estão risco de pobreza antes das transferências sociais, duas vezes
mais que as pessoas sem deficiência. Considerando as transferências sociais a
taxa baixava para 22,2% nas pessoas com deficiência e para 14,1% nas pessoas
sem deficiência. Esta diferença tem-se acentuado.
É neste quadro que decisão do
Governo no sentido da diminuição do financiamento do Sistema de Atribuição de
Produtos de Apoio (SAPA) para as pessoas com deficiência não se compreende,
mas, lamentavelmente, também não surpreende. Faltava esta pérola, é deficiente,
faz trabalho social.
Na verdade, apesar de alguma
evolução, a situação das pessoas com deficiência continua com grande
vulnerabilidade face à pobreza e exclusão.
Não é novo, sucessivos relatórios
de diferentes entidades vão mostrando o quanto está por fazer e as dificuldades
decorrentes da corrida de obstáculos em que se transforma a vida das pessoas
com deficiência ameaçando os seus direitos e bem-estar bem como das suas
famílias. São por demais evidentes as dificuldades em áreas como, educação,
saúde, trabalho e emprego, segurança social, acessibilidades, autonomia,
independência ou autodeterminação.
Repetindo-me, a voz das minorias
é continua muito baixa, ouve-se mal, existem variadíssimas áreas em que são
significativas as dificuldades colocadas às pessoas com deficiência,
designadamente saúde, acessibilidades, educação, apoio social, qualificação profissional
e emprego, em que a vulnerabilidade e o risco de exclusão continuam elevados
como este relatório mostra.
Importa também sublinhar que os
direitos fundamentais não podem ser de geometria variável em função de
contextos ou hipotecados às oscilações de conjuntura ainda que tenhamos
consciência da excepcionalidade destes tempos.
Parece necessário reafirmar mais
uma vez que os níveis de desenvolvimento das comunidades também se aferem pela
forma como lidam com os grupos mais vulneráveis e com as suas problemáticas.
Este entendimento é tanto mais importante quanto mais difíceis são os contextos
em que vivemos, os tempos actuais mostram discursos e comportamento hostis e
agressivos face à diversidade, ameaçam quem é percebido como diferente como se
existissem dois seres humanos iguais.
Mas, mais grave é que estes
discursos começam a contaminar as políticas públicas dada a mediocridade de
lideranças, e sustentam a negação de valores e culturas que dávamos como
adquiridos. Desculpem a insistência.
Não passarão.